Antes de embarcar, uma carta do idealizador para quem vai: como o chamado para a África chegou até ele e o que encontrou do outro lado.
Em 2013, prestes a completar 30 anos, estava passando por aquelas fases de revisão de vida, em que parece que as coisas que “eram” deixam de fazer sentido e “o que será” ainda não está definido... uma zona cinzenta em que parece que a única alternativa é largar tudo.
Acho que todos nós já passamos por algo assim.
Naquele momento, só um pensamento me vinha: “preciso ir para a África”. Sem muito sentido, sem planejamento e, infelizmente, sem a seriedade e a força de vontade necessárias pra seguir esse chamado.
Corta.
Em 2019, passei por uma descrença muito grande com relação ao “meu” mundo de autoconhecimento e desenvolvimento humano. Isso porque muitas pessoas que eram referências no mercado agiam totalmente em desacordo com aquilo que pregavam. Incoerência no mais alto grau. E fiquei me perguntando:
“Esse caminho de desenvolvimento pessoal serve pra alguma coisa mesmo? Não será uma grande ilusão? Não é a ‘espiritualidade’ também uma máscara?”
Nos anos que se seguiram, aproveitei a pandemia pra estudar e refletir muito a respeito disso tudo. Daria um livro inteiro somente com o que aprendi nessas indagações. Mas, se existe um resumo desse tempo de reflexão, seria este:
“O autoconhecimento é insuficiente por si só. O processo de ganho de consciência exige o ato de ‘servir’. A gente vai para o mundo de dentro para viver o mundo de fora... Mas é preciso também ir para o mundo de fora (em sua complexidade, fora das bolhas) para poder evoluir o mundo de dentro.”
Então, em 2023, com diversas “coincidências”, o mundo me trouxe de volta o sonho da África. Só que esse chamado agora tinha endereço, planejamento e vontade.
Em 2024, vou, pela primeira vez, para o Malawi, um dos países mais pobres do mundo, em um trabalho junto à Fraternidade Sem Fronteiras, viver esse chamado.
· · ·
Dias antes da viagem, eu estava com a ansiedade a mil, naquela confusão interna de “preciso ir” com “tô sentindo que não é para ir”.
Horas antes de ir para o aeroporto, eu falei para minha companheira: “Tô MUITO nervoso e sei que, quando estou assim, é porque algo muito importante vai acontecer na minha vida, e eu não faço a menor ideia do que seja”. Isso já tinha acontecido, nessa intensidade, em outros dois momentos de renascimento na minha vida.
Corta.
É muito difícil explicar o que aconteceu. Tem coisas que estão em outro plano e não cabe a nós, meros humanos, entender, muito menos explicar. Tentar descrever é colocar o oceano em um copo e começar a chamar esse copo de oceano.
Em mim: me tornei humano. Conheci a fraternidade, de verdade. Conheci a paz, de verdade. Como se Deus, de alguma forma, tivesse me ensinado o que era pra ter sido desde o começo.
Senti uma mudança de polaridade forte dentro de mim (é sério isso... rs). Aprendi que nós estamos vivendo com a polaridade invertida. Todos nós: a cultura, o planeta, a educação, a “espiritualidade” etc., tudo está com os polos invertidos... e assim, por ressonância, por mais que queiramos, nós acabamos invertidos também.
Uma das aprendizagens mais importantes foi entender o que me impedia de enxergar o verdadeiro:
acreditar no amor, na esperança, na compaixão, na bondade humana e em todas as outras virtudes “do bem” era também uma programação dessa mesma matrix. Infelizmente, também são histórias contadas para aqueles que querem ser “do bem”.
E, sim, é tudo uma ilusão. É uma propaganda que contaram tantas vezes que a gente aceitou como verdade.
Mas a pergunta é simples: se tivéssemos REALMENTE entendido tudo isso, continuaríamos a viver da forma como vivemos? Seja como sociedade, seja na nossa vida pessoal?
Doeu muito em mim entrar em contato com isso. Tudo aquilo que eu acreditava sobre essas virtudes era uma ilusão. Infelizmente, tomamos o caminho errado. Para poder viver o que eu vivi, tive que renunciar aos meus valores mais importantes. E isso é muito difícil. Muito!
Porém, o lindo paradoxo... a pegadinha de Deus... é: quando renunciamos a tudo isso e entramos no limbo, na escuridão, na noite escura da alma, e atravessamos esse mundo invertido (que acreditamos ser a verdade)... e, depois de sumir na desilusão, no desamor, na desesperança... a luz divina nasce... conhecemos o mundo real, onde, aí sim, sem maquiagem, sem disfarce, sem precisar de nada, sem acreditar em nada, aparece:
o Amor, a Esperança, a Compaixão, a Fraternidade, a nossa frágil e poderosa Humanidade.
Que tenhamos todos uma linda experiência.